Description:Certa vez, ao passar a seus alunos um exercício de fotografia, Fabiano Scholl conta que um deles fez imagens de pessoas cujos pés estavam fora do enquadramento, e o professor quis saber o porquê daquela escolha. O aluno buscava um efeito tal que as pessoas parecessem estar no espaço. O professor arguiu, então, a um só tempo enfático e delicado: “Mas nós estamos no espaço”. Os poemas que Gustavo Rosa apresenta neste livro de estreia entregam esta sensação decuplicada: estamos efetivamente no espaço, a flutuar em nossos batiscafos de memória e em nossas esferas de realidade (seja lá o que isso queira dizer), ainda que as leis da física e as vicissitudes do cotidiano, da rotina e da compulsão à repetição, mantenham-nos rentes ao chão, temerosos em sair voando, presos no eterno labirinto do que volta, mas sempre é o mesmo e sempre é outro.Assim, Um levantar de paredes pode significar tanto a ideia de construção, como uma metáfora para a edificação, quanto o seu oposto: livrar-se das paredes, fazer coalescer em seus entornos o que antes era espaço privado e “individual”. A dicção do poeta se conecta a isso: ele não parece ter preocupação excessiva com a utilização de uma voz própria, provavelmente porque perdeu (ou nunca teve) essa ilusão – sua voz se liga àquelas de seus poetas prediletos, o que está longe de desqualificar a sua poesia. Uma lógica espacial também aqui se manifesta, a roçar o que anunciou Haroldo de Campos um dia: “A poesia é uma família dispersa de náufragos bracejando no tempo e no espaço”. O espaço toma as feições de um tempo, com suas vestimentas e sua imantação e, em boa parte dos poemas, o tempo é o da infância – não é a infância o país onde eclode a poesia? Não é sobre os olhos da criança que se aplicará a venda com que ela será empurrada para o mundo adulto, onde epifania, estranhamento e ignorância (no sentido de ignorar diante do mistério) perdem terreno para certeza, objetividade e totalização? É no espaço solapado pelo permanente quebrar e aderir da linguagem que os objetos de afeto do poeta circulam, interrogam-se, ficam opacos ou resplandecem: mãe, pão, pedra, lua (outra pedra), a casa da frente, estrela – distantes ou perto, ombreiam-se no plasma cósmico do cotidiano (também esse uma casa habitada por muitos poetas, e que tem muitas portas). É nessa senda que o poeta retém “o que uma janela esconde na velocidade”. E é com uma ironia puntiforme que ele admite, não sem alguma melancolia, que “pisar em osso nunca é fácil”.MARCO DE MENEZESWe have made it easy for you to find a PDF Ebooks without any digging. And by having access to our ebooks online or by storing it on your computer, you have convenient answers with Um levantar de paredes. To get started finding Um levantar de paredes, you are right to find our website which has a comprehensive collection of manuals listed. Our library is the biggest of these that have literally hundreds of thousands of different products represented.
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