Description:«Com a publicação do presente estudo versando certos aspectos fundamentais da tecnologia agrícola tradicional açoreana, ou seja, mais concretamente, as alfaias do trabalho da terra e os processos de conservação e armazenagem do milho usados no Arquipélago, e que se vem juntar aos dois livros anteriormente editados, sobre os moinhos de vento e sobre os instrumentos musicais populares açoreanos como corolário e complemento das recolhas ali efectuadas desses elementos culturais para a Fundação Gulbenkian e para o Museu de Etnologia*, damos à estampa o essencial do que restava ainda inédito do avultado número de notas colhidas durante visita que fizemos às Ilhas — S. Miguel, Santa Maria, Terceira, Graciosa, S. Jorge, Pico e Faial — em Outubro/Novembro de 1963. Tempo inesquecível esse, novo mês de sonho, que, a nós também, nos foi dado viver: a terra, a beleza das paisagens, em que a grandeza se alia à doçura, a harmonia à severidade; as coisas, que integram uma velha cultura original outras tantas imagens que desde então povoavam a nossa memória com o seu profundo interesse e o seu encantamento.Durante mais de vinte anos, portanto, estes materiais permaneceram silentes nos cadernos de campo que trouxemos da nossa viagem: simples descrições, acompanhadas não raro de desenhos mal-hábeis, muitas vezes lacunares e suscitando dúvidas, que esperavamos, numa nova ida às Ilhas, esclarecer e completar, de modo a melhor merecerem publicação. Mas compreendemos que essa esperança era doravante baldada, e que, a despeito da importância para nós das razões que estavam em causa e do grande desejo que tínhamos de lá voltar, tal não mais seria possível. E decidimos então apresentar esses materiais tal e qual, tentando assim, mais uma vez, pagar, com este modesto contributo, uma parte da nossa grande divida para com o povo e para com os nossos amigos açoreanos, dizer desta maneira um pouco do que as Ilhas foram para nós, que é também a forma de dizermos o nosso amor por elas, que elegemos como se fossem a nossa terra própria, porque cremos que, neste caso, as diferenças não separam, mas, pelo contrário, unem e enriquecem a unidade.Uma outra consideração ainda nos moveu: por toda a parte, e certamente nos Açores também, os últimos vinte anos constituiram um marco decisivo de mudança; e isso, por um lado, tornaria muito incerta, mesmo que lá voltassemos agora, a satisfação do nosso desideratum; e, por outro, dava quiçá uma nova razão de ser a estes apontamentos, que, pela sua referência a um mundo em via de extinção, se não mesmo irreversivelmente extinto, poderão vir a ser de qualquer utilidade para os estudiosos da etno-história e da tecnologia agrária — que o mesmo é dizer alguns dos modos de viver, nos seus aspectos fundamentais — dos Açores.A investigação etnográfica portuguesa caracterizou-se, desde os seus primórdios, por um traço peculiar, que assinala a sua originalidade: a inclusão, no conceito da tradição popular, que recobria o âmbito de tal investigação, dos temas respeitantes aos elementos materiais da cultura (e a certos aspectos etno-sociológicos do nosso mundo campesino), superando desse modo as limitações clássicas do «Folk-Lore», que por toda a parte se identificava com aquêle conceito.Essa posição é inaugurada por Adolfo Coelho com os trabalhos sobre o «Esboço de um Programa de Estudo de Etnologia Peninsular», e «Exposição Etnográfica Portuguesa», datados de 1880 e de 1896, e sobretudo sobre a «Alfaia Agrícola Portuguesa», datado de 1900; e será retomada a seguir por Rocha Peixoto, com os seus estudos sobre a «Malacologia Popular», e sobre as instituições comunitárias, de 1890 e 1908, por Leite de Vasconcelos em alguns dos seus escritos, e por vários colaboradores das grandes revistas etnográficas da época — «Portugália», «A Tradição», «Revista Lusitana», e outras — Jorge Dias prosseguirá nessa linha, a que dará o maior desenvolvimento e uma projecção decisiva, com os seus estudos sobre os arados e sobre certos aspectos das tecnologias tradicionais, e sobretudo sobre as comunidades rurais, nomeadamente Vilarinho da Furna e Rio de Onor; e será nesse sentido que se definirá a vocação essencial do Centro de Estudos de Etnologia, criado pelo grande Mestre, com as obras fundamentais dos seus colaboradores Fernando Galhano, Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira.Assim foi entendida também a investigação etnográfica por alguns entre os primeiros estudiosos açoreanos: Luiz da Silva Ribeiro, que, nas palavras com que anunciamos o seu falecimento, em 1956, celebramos como sendo «um dos investigadores mais conscienciosos e de maior relevo dentro da ciência etnográfica portuguesa», que forneceu a essa ciência, aos níveis nacional, europeu e euro-americano, um contributo digno da nossa maior admiração; e o Dr. Luís Bernardo Leite d'Athaíde, figura prestigiosa do mundo social e cultural da sua ilha de S. Miguel — cujos trabalhos, que tantos são da melhor qualidade, muitas vezes nos ajudaram a esc...We have made it easy for you to find a PDF Ebooks without any digging. And by having access to our ebooks online or by storing it on your computer, you have convenient answers with Tecnologia tradicional agrícola dos Açores: subsídios para o seu estudo. To get started finding Tecnologia tradicional agrícola dos Açores: subsídios para o seu estudo, you are right to find our website which has a comprehensive collection of manuals listed. Our library is the biggest of these that have literally hundreds of thousands of different products represented.
Pages
93
Format
PDF, EPUB & Kindle Edition
Publisher
Centro de Estudos de Etnologia – Instituto Nacional de Investigação Científica
Release
1987
ISBN
Tecnologia tradicional agrícola dos Açores: subsídios para o seu estudo
Description: «Com a publicação do presente estudo versando certos aspectos fundamentais da tecnologia agrícola tradicional açoreana, ou seja, mais concretamente, as alfaias do trabalho da terra e os processos de conservação e armazenagem do milho usados no Arquipélago, e que se vem juntar aos dois livros anteriormente editados, sobre os moinhos de vento e sobre os instrumentos musicais populares açoreanos como corolário e complemento das recolhas ali efectuadas desses elementos culturais para a Fundação Gulbenkian e para o Museu de Etnologia*, damos à estampa o essencial do que restava ainda inédito do avultado número de notas colhidas durante visita que fizemos às Ilhas — S. Miguel, Santa Maria, Terceira, Graciosa, S. Jorge, Pico e Faial — em Outubro/Novembro de 1963. Tempo inesquecível esse, novo mês de sonho, que, a nós também, nos foi dado viver: a terra, a beleza das paisagens, em que a grandeza se alia à doçura, a harmonia à severidade; as coisas, que integram uma velha cultura original outras tantas imagens que desde então povoavam a nossa memória com o seu profundo interesse e o seu encantamento.Durante mais de vinte anos, portanto, estes materiais permaneceram silentes nos cadernos de campo que trouxemos da nossa viagem: simples descrições, acompanhadas não raro de desenhos mal-hábeis, muitas vezes lacunares e suscitando dúvidas, que esperavamos, numa nova ida às Ilhas, esclarecer e completar, de modo a melhor merecerem publicação. Mas compreendemos que essa esperança era doravante baldada, e que, a despeito da importância para nós das razões que estavam em causa e do grande desejo que tínhamos de lá voltar, tal não mais seria possível. E decidimos então apresentar esses materiais tal e qual, tentando assim, mais uma vez, pagar, com este modesto contributo, uma parte da nossa grande divida para com o povo e para com os nossos amigos açoreanos, dizer desta maneira um pouco do que as Ilhas foram para nós, que é também a forma de dizermos o nosso amor por elas, que elegemos como se fossem a nossa terra própria, porque cremos que, neste caso, as diferenças não separam, mas, pelo contrário, unem e enriquecem a unidade.Uma outra consideração ainda nos moveu: por toda a parte, e certamente nos Açores também, os últimos vinte anos constituiram um marco decisivo de mudança; e isso, por um lado, tornaria muito incerta, mesmo que lá voltassemos agora, a satisfação do nosso desideratum; e, por outro, dava quiçá uma nova razão de ser a estes apontamentos, que, pela sua referência a um mundo em via de extinção, se não mesmo irreversivelmente extinto, poderão vir a ser de qualquer utilidade para os estudiosos da etno-história e da tecnologia agrária — que o mesmo é dizer alguns dos modos de viver, nos seus aspectos fundamentais — dos Açores.A investigação etnográfica portuguesa caracterizou-se, desde os seus primórdios, por um traço peculiar, que assinala a sua originalidade: a inclusão, no conceito da tradição popular, que recobria o âmbito de tal investigação, dos temas respeitantes aos elementos materiais da cultura (e a certos aspectos etno-sociológicos do nosso mundo campesino), superando desse modo as limitações clássicas do «Folk-Lore», que por toda a parte se identificava com aquêle conceito.Essa posição é inaugurada por Adolfo Coelho com os trabalhos sobre o «Esboço de um Programa de Estudo de Etnologia Peninsular», e «Exposição Etnográfica Portuguesa», datados de 1880 e de 1896, e sobretudo sobre a «Alfaia Agrícola Portuguesa», datado de 1900; e será retomada a seguir por Rocha Peixoto, com os seus estudos sobre a «Malacologia Popular», e sobre as instituições comunitárias, de 1890 e 1908, por Leite de Vasconcelos em alguns dos seus escritos, e por vários colaboradores das grandes revistas etnográficas da época — «Portugália», «A Tradição», «Revista Lusitana», e outras — Jorge Dias prosseguirá nessa linha, a que dará o maior desenvolvimento e uma projecção decisiva, com os seus estudos sobre os arados e sobre certos aspectos das tecnologias tradicionais, e sobretudo sobre as comunidades rurais, nomeadamente Vilarinho da Furna e Rio de Onor; e será nesse sentido que se definirá a vocação essencial do Centro de Estudos de Etnologia, criado pelo grande Mestre, com as obras fundamentais dos seus colaboradores Fernando Galhano, Ernesto Veiga de Oliveira e Benjamim Pereira.Assim foi entendida também a investigação etnográfica por alguns entre os primeiros estudiosos açoreanos: Luiz da Silva Ribeiro, que, nas palavras com que anunciamos o seu falecimento, em 1956, celebramos como sendo «um dos investigadores mais conscienciosos e de maior relevo dentro da ciência etnográfica portuguesa», que forneceu a essa ciência, aos níveis nacional, europeu e euro-americano, um contributo digno da nossa maior admiração; e o Dr. Luís Bernardo Leite d'Athaíde, figura prestigiosa do mundo social e cultural da sua ilha de S. Miguel — cujos trabalhos, que tantos são da melhor qualidade, muitas vezes nos ajudaram a esc...We have made it easy for you to find a PDF Ebooks without any digging. And by having access to our ebooks online or by storing it on your computer, you have convenient answers with Tecnologia tradicional agrícola dos Açores: subsídios para o seu estudo. To get started finding Tecnologia tradicional agrícola dos Açores: subsídios para o seu estudo, you are right to find our website which has a comprehensive collection of manuals listed. Our library is the biggest of these that have literally hundreds of thousands of different products represented.
Pages
93
Format
PDF, EPUB & Kindle Edition
Publisher
Centro de Estudos de Etnologia – Instituto Nacional de Investigação Científica